O que está acontecendo?
Essa semana teve gente preocupada porque pode passar a trabalhar menos.
Teve gente preocupada porque a IA pode fazer parte do trabalho dela.
E teve gente preocupada porque viu mais uma rodada de layoffs em alguma empresa grande.
Parece que são três assuntos diferentes.
Mas acho que todos falam da mesma coisa: valor do trabalho/emprego.
Escala 6×1 e as novas jornadas
A proposta de colocar um fim na escala 6x1 e reduzir a jornada máxima de trabalho avançou na Câmara e, como sempre acontece quando esse assunto aparece, surgiram previsões apocalípticas sobre o impacto na produtividade.
O debate gira em torno de adotar modelos mais flexíveis, como a jornada de 36 horas ou a semana de 4 dias, mas o curioso é que empresas que já testaram semanas mais curtas relatam justamente o contrário do que dizem os pessimistas. Em muitos casos, a produção se manteve igual ou até aumentou (tem estudos grandes e globais sobre isso).
Talvez porque ninguém passe 44 horas por semana produzindo de verdade. Uma parte do tempo vai embora em reuniões que poderiam ser um e-mail. Outra parte em e-mails que poderiam ser uma mensagem. Outra parte em tarefas que ninguém sabe exatamente por que continuam existindo. A discussão, no fundo, revela uma mudança importante: estamos começando a perceber que tempo gasto e valor gerado não são a mesma coisa.
Essa mesma lógica ajuda a entender os layoffs dos últimos anos. Volta e meia uma notícia de milhares demitidos, principalmente nas companhias gigantes. Muita gente olha para as demissões e conclui que as empresas estão dispensando os profissionais menos capazes. Não parece ser isso. Em muitos casos, o que desapareceu foram funções cuja principal responsabilidade era organizar, consolidar ou mover informação de um lugar para outro. O trabalho não era ruim. Apenas ficou mais fácil e barato de ser feito.
Quando você olha por esse ângulo, a notícia é menos assustadora do que parece. Julgamento, capacidade de tomar boas decisões e de resolver problemas; tudo isso ficou mais valioso do que era antes.
O mesmo acontece com a inteligência artificial. A pergunta mais comum hoje é se ela vai substituir pessoas. Eu acho que a pergunta mais útil é outra: o que você faz hoje que não precisa mais ser você fazendo?
Se a IA consegue resumir um relatório, ótimo. Se consegue organizar uma pesquisa, melhor ainda. Se consegue produzir a primeira versão de um texto, perfeito. O problema nunca foi deixar de preencher planilhas. O problema era acreditar que preencher planilhas era o trabalho. Trabalho de verdade continua sendo pensar, decidir e resolver problemas.
Deep Dive
Existe uma diferença importante entre ter emprego e ser empregável.
Ter emprego é uma fotografia. Empregabilidade é um ativo.
O emprego pode acabar numa reunião de quinze minutos. A empregabilidade continua com você quando a reunião termina.
Por isso vale a pena investir nela mesmo quando tudo parece estar funcionando.
Na prática, percebo três coisas que costumam separar profissionais que atravessam mudanças com tranquilidade daqueles que ficam completamente dependentes da empresa onde estão.
A primeira é deixar rastros das próprias entregas. Parece óbvio, mas muita gente faz trabalhos excelentes e nunca registra nada. Dois anos depois, lembra vagamente dos resultados, mas não consegue mostrar nenhum exemplo concreto. Experiência sem evidência perde força muito rápido.
A segunda é cultivar relacionamentos reais. Não estou falando de seguidores ou conexões acumuladas no LinkedIn. Estou falando de pessoas que conhecem seu trabalho e se sentiriam confortáveis em indicar você para uma oportunidade. Esse tipo de rede não se constrói quando você precisa dela. Se constrói muito antes.
A terceira é continuar aprendendo coisas novas. Não porque o mercado exige atualização constante, mas porque a estagnação costuma ser invisível para quem está parado. Vale se perguntar: o que você sabe fazer hoje que não sabia fazer há dois anos? Não precisa ser inteligência artificial. Pode ser negociação, comunicação, liderança, finanças ou qualquer outra habilidade relevante para sua área.
O mercado de trabalho não ficou necessariamente mais difícil. Ele ficou mais transparente. Está ficando mais fácil perceber quem gera valor e quem apenas ocupa espaço.
Talvez a pergunta mais útil da semana seja simples: qual dessas três áreas está mais parada na sua vida hoje? Registros das suas entregas, conexões reais de valor ou aprendizado contínuo?
Ferramenta da Semana
O Perplexity é provavelmente a ferramenta que mais mudou a forma como eu pesquiso qualquer assunto.
Imagine um Google que, em vez de devolver uma lista de links, já entrega uma resposta organizada e mostra exatamente de onde tirou cada informação. É basicamente isso. E por isso se diferencia do ChatGPT, Claude e outros.
Para pesquisas sobre mercado, concorrência, tendências ou qualquer tema que exija um mínimo de profundidade, ele costuma economizar uma quantidade absurda de tempo. A versão gratuita já resolve bastante coisa. A versão paga libera recursos extras, como análise de PDFs e acesso a modelos mais avançados.
Vale testar.
Principalmente se você ainda passa meia hora abrindo abas para descobrir algo que poderia ter encontrado em cinco minutos.
Sextou, e chega de falar de trabalho. Bom final de semana.